quarta-feira, 20 de agosto de 2008

NAMOROFOBIA (Danusa Leão)


A praga da década são os namorofóbicos. Homens (e mulheres) estão cada vez mais arredios ao título de namorado, mesmo que, na prática, namorem.

Uma coisa muito estranha. Saem, fazem sexo, vão ao cinema, freqüentam as respectivas casas, tudo numa freqüência de namorados, mas não admitem. Têm alguns que até têm o cuidado de quebrar a constância só para não criar jurisprudência, como se diria em juridiquês. Podem sair várias
vezes numa semana, mas aí tem que dar uns intervalos regulamentares, que é para não parecer namoro. -É tua namorada? - Não, a gente tá ficando.

Ficando aonde, cara pálida? Negam o namoro até a morte, como se namoro fosse casamento, como se o título fizesse o monge, como se namorar fosse outorgar um título de propriedade. Devem temer que ao chamar de namorada (o) a criatura se transforme numa dominadora sádica, que vai arrastar a presa para o covil, fazer enxoval, comprar alianças, apresentar para a parentada toda e falar de casamento - não vai. Não a menos que seja um (a) psicopata.Mais pata que psico.

Namorar é leve, é bom, é gostoso. Se interessar pelo outro e ligar pra ver se está tudo bem pode não ser cobrança, pode ser saudade, vontade de estar junto, de dividir. A coisa é tão grave e levada a extremos que pode tudo, menos chamar de namorado. Pode viajar junto, dormir junto, até ir ao supermercado junto (há meses!), mas não se pode pronunciar a palavra macabra: NAMORO.

Antes, o problema era outro: CASAMENTO. Ui. Vá de retro! Cruz credo! Desafasta. Agora é o namoro, que deveria ser o test drive, a experiência, com toda a leveza do mundo. Daqui a pouco, o problema vai ser qualquer tipo de relacionamento que possa durar mais que uma noite e significar um envolvimento maior que saber o nome. Do que o medo? Da responsabilidade? Da cobrança? De gostar? Sempre que a gente se envolve com alguém tem que ter cuidado. Não é porque "a gente tá ficando" que não se deve respeito, carinho e cuidado. Não é porque "a gente tá ficando" que você vai para cama num dia e no outro finge que não conhece e isso não dói ou não é "filhadaputice".
Não é porque "a gente tá ficando" que o outro passa ser mais um número no rol das experiências sexuais - e só.

Ou é?

Tô ficando velho? Se estiver, paciência. Comigo, só namorando...kkkkkkkkk

Que diferença há entre o preto e o branco...


...se no fringir dos ovos, todos são iguais?

Há Sempre...


… um dia em que a máscara deixa de servir. E depois?

Geração Fast Foda, ou o vazio do amor.


Sexo é diferente de amor.

Só escuto todo mundo falando que sexo é diferente de amor. Que fazer amor é lindo, encantador, delicioso...

Mas quando falam do sexo tratam o ato como válvula de escape de alguma coisa que ficou descompensada e ainda dizem: fazer sexo é muito bom. Porque as pessoas não fazem mais amor então? O fast foda está na moda? Não sei para que eu pergunto isso, se eu mesmo tenho a resposta.

Fazer sexo é agir por instinto... Poder puxar pelos cabelos da nuca, apertar o corpo com mais força, não virar com delicadeza, não sentir vergonha de ritmos e gemidos animais, chamar palavrões de baixo calão, poder sentir o cheiro do orgasmo e o coração querendo sair pela boca com aquela mistura de vida e morte.

Há os que digam que sexo é bom e melhor que sexo, só sexo por sexo! Sexo sem compromisso, sem querer apresentar a ninguém , apenas porque ele aquece, amolece, alivia e mela o instinto. È o tipo de sexo sem ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem falar no futuro...

Posso até fazer um slongan já:

Fast Foda: porque a vida é difícil, cansativa e ele relaxa. Ou, ainda poderá usar: Faça. Porque se não o fizer hoje, acabará por fazê-lo amanhã ou depois.

Mas sexo sem amor é ficar vazio. È ser vazio, estar nulo e não poder preencher o vácuo existente no outro. É não ouvir aquela voz doce ao pé do ouvido, como se revelasse um segredo, dizendo: "amo-te"; ter uma mão no ombro para aplacar a solidão, não ter alguém para apresentar à família e amigos com sendo a pessoa a quem você ama. Sexo sem amor é não ter a quem dar: o beijo de bom dia quando acorda na cama; a primeira fatia do bolo de aniversário; o primeiro abraço no Ano Novo; É não ter pra quem ligar contando as novidades boas (e as ruins), não ter com quem dormir grudadinho, ou mesmo puxar o lençol na cama, ou ainda ficar velando o sono...

Fast foda sim. Fazer sexo sem amor sim! Mas não para sempre. Afinal temos de dar uma oportunidade pro amor( por que este sim relaxa, cura o mau humor, ameniza as dificuldades e faz-nos flutuar).

Experimente ser amado.

Revendo as dores...



Hoje cedo, enquanto preparava meu chá para o desjejum, liguei o rádio para ouvir o que se passava pelo mundo. Pensei que me ouviria os porres das propagandas políticas, mas era demasiadamente cedo para que elas fossem veiculadas – o que achei ótimo.

O locutor, numa voz pior do que a minha, talvez por conta do sono... srrsrsrsr – soltava as notícias locais em gotículas avisando o que teria no seu menu: “O Presidente Lula estará no Ceará hoje, estaria no Pécem, em Quixeramobim e em Juazeiro para dar apoio políticos as bases locais do PT; A Igreja do Mucuripe entrará nos preparativos para a Festa de N. Sra. Da saúde (ou seria das dores?, não lembro)... Aí ainda falou algumas abobrinhas e passou a fazer uma oração à santíssima virgem. Foi neste instante que me deparei com uma dúvida.

Enquanto o locutor falava de Maria, eu fiquei imaginando: - Segundo o que dizem por aí, Maria não teve as famosas dores do parto, tão sofridas e inesquecíveis para as mulheres. No entanto será que ao longo de sua vida a Virgem não teve dores maiores, mais intensas e marcadas pela tristeza de não poder ir contra a vontade de algo maior que o seu instinto materno? O que teria Ela sentindo tendo de “aceitar” que seu filho gerado sem dor e concebido de forma inexplicável até hoje, passaria a ser perseguido pelos simples caprichos do poder? O que teria sentido Maria ao ver multidões pedindo que soltassem a Barrabás – conhecido como um dos piores elementos daquela época – ao invés de seu filho?

Coração de mãe resiste tanto? Vem cá, olha só, Maria ainda teve que ver o filho sendo humilhado em praça pública; sendo açoitado, cuspido, maltratado; carregando um objeto pesadíssimo numa hora em que se encontrava debilitado; Viu ainda, que foram poucas as pessoas que se preocuparam e ajudar; Ainda teve de suportar a visão do seu ‘menino’ crucificado agonizando em meio a revolta do tempo; Teve mais, teve de cuidar do corpo inerte e sem vida do filho que apresentava o corpo marcado pela ação brutal da ignorância humana, e até Ela(a Virgem) ter a certeza que o filho voltara a vida novamente, o que teria sentindo? Revolta? Sentia-se humilhada? Que consolo teria em saber que o seu Deus lhe dera um filho especial que ele (o filho) teria de passar por tudo aquilo sem que ela interviesse?

Será que algum dia Maria pensou: Valeu à pena ter enfrentado os comentários do povo? Ter enfrentado a ira de um homem que ainda não era o seu esposo pelo fato de estar grávida de DEUS? Ter fugido pelo deserto? Foi justo não ter tido as dores do parto? Foi justa tanta preocupação quando o filho desapareceu ainda pequeno, ou mesmo já adulto quando resolveu se exilar no deserto para pagar suas penitencias? Fui justo, se sentir dilacerada vendo o povo de sua sociedade ajudando a acabar com o seu filho, matá-lo?

Se Maria pudesse responder isso hoje talvez a resposta dela fosse igual a minha: - Estamos vivos! Foi pra isso que ele veio. (E se perceberia uma dor imensa no fundo da alegria radiante...)

Acredito que dores são coisas ruins. Porém piores são as pessoas, que só complicam suas vidas dando-lhes dores desnecessárias. Mas fica a dúvida: - E se ela tivesse sentido as dores do parto, amenizaria algo na história? Estaríamos aqui?

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

procurando por mim?


A esta altura da vida já não sei mais quem sou… Vejam só que dilema!!!
Na ficha da loja sou CLIENTE, no restaurante FREGUÊS, quando alugo uma casa INQUILINO, na condução PASSAGEIRO, nos correios REMETENTE, no supermercado CONSUMIDOR.
Para a Receita Federal CONTRIBUINTE, se vendo algo importado CONTRABANDISTA. Se revendo algo MUAMBEIRO, se o carnê tá com o prazo vencido INADIMPLENTE, se não pago imposto SONEGADOR.
Para votar ELEITOR, mas em comícios MASSA, em viagens TURISTA, na rua caminhando PEDESTRE, se sou atropelado ACIDENTADO, no hospital PACIENTE. Nos jornais viro VÍTIMA, se compro um livro LEITOR, se ouço rádio OUVINTE.
Para o Ibope ESPECTADOR, para apresentador de televisão TELESPECTADOR, no campo de futebol TORCEDOR. Se sou rubronegro, SOFREDOR. Agora, já virei GALERA. (se trabalho na ANATEL , sou COLABORADOR ) e, quando morrer… uns dirão… FINADO, outros …DEFUNTO, para outros … EXTINTO, para o povão … PRESUNTO. Em certos círculos espiritualistas serei … DESENCARNADO, evangélicos dirão que fui …ARREBATADO.
E o pior de tudo é que para todo governante sou apenas um IMBECIL !!! E pensar que um dia já fui mais EU.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Lenda Inacabada (Parte 1)



PE(R)DIDOS

Depois de tanto observar o animalzinho no seu sono tranqüilo, o jovem caçador arrancou a blusa que usava para aliviar algo que o incomodava nas costas – artísticos arranhões marcavam aquela pele alva.

Em seguida foi até a varanda da velha choupana e sentou-se por ali. Antes, porém, teve o cuidado de colocar o cesto onde o animalzinho dormia em frente a porta que permaneceria aberta para o caso de ele despertar e ver que não estava sozinho.

Sentado de costas para a porta escancarada, o caçador virou-se para traz – queria assegurar-se que o bichinho ainda dormia.

-‘Como é linda esta criatura!- ele devia ter pensado. – Agora, ele em nada se parece com o bichinho fragilizado pelos ataques cruéis da existência predadora que outrora fora encontrado sofrendo, de asa quebrada, no jardim da Mãe Natureza. ’

Naquele instante o relógio da sala badalava os doze toques da entrada na meia noite – tão famosa pelo seu poder sobrenatural. Mas ali não existia feitiços para ser desencantados; nada nem ninguém virando abóbora; ou, muito menos ratinhos virando celebrados corcéis. Ali apenas existiam duas vidas interligadas pelo fio do cuidado.

Aquelas badaladas despertaram o bichinho (relógio sacana!). E do cesto onde estava ele podia ver o jovem caçador sentado no primeiro degrau de acesso a velha choupana; sem camisa e com o rosto esticado, olhando para o alto onde talvez, admirasse a renda cintilante das estrelas vazadas pela sóbria escuridão. Os portais de madeira polida da porta de entrada geravam a imagem emoldurada do jovem homem contemplador dos astros iluminado pelos raios azuis do luar – o que deixava aquela pele alva como o mármore branco.

Entretanto, como todo mármore, ele também apresentava veios destacados pelo luar e inflamados. O bichinho levantou-se cuidadosamente sem se fazer notar e ficou analisando as marcas presentes nas costas do caçador. Aqueles arranhões ficavam mais nítidos com a luz da lua que ressaltava os sinais púrpuros irritados de uma inflamação dolorida.

O animalzinho bateu asas e, como toda boa ave de rapina, aproximou-se do caçador sorrateiramente, que se assustou com o vento daquelas asinhas na suas costas.

-Ah, é você! Não estava dormindo? O que está fazendo aqui?

-Vi suas feridas ao longe e quero fazer algo para retribuir o cuidado que teve comigo.

O jovem caçador soltou um sorriso largo. O bichinho levantou mais no seu vou para que planasse no colo do caçador. Tão logo fez isso, o animalzinho pode sentir o calor das mãos do jovem lhe esquentando a penugem.

-Por que não me disse que estava machucado? Por que escondeu isso? – o bichinho quis saber.

-Ora, se você soubesse que eu estaria machucado você me permitiria cuidar de você? Acreditaria que eu, estando debilitado, poderia te ajudar, mesmo estando eu com dores – talvez não como as que você sentia, mas com dores?

O bichinho sorriu com os olhos e balançou a cabeça confirmando que não permitiria a ajuda.

-Pois bem. - continuou o caçador. - Naquele instante sua asa quebrada deveria estar doendo mais que os meus arranhões. Esqueci minhas dores e fui ao teu auxilio.

-Por que não me abateu? Não é isso o que um caçador faz, abater vítimas indefesas?

-Caçar nem sempre significa abater a caça, meu caro. No seu caso em especial, nem armas usei para te capturar e, você está aqui, agora comigo, não está?

-Sim, estou.

-Então, percebe que eu continuo como caçador e você como minha caça, mesmo que você não tenha conseguido fugir e, que eu não tenha tido o trabalho de ter-te perseguido para conseguir o que eu queria?

Uma rajada de ar gélido soprou forte naquele instante e fez o jovem caçador soltar um gemido de dor. O animalzinho percebendo que o sopro de Éolo machucava as costas do jovem pôs-se então a bater asas novamente e vôo sobre a cabeça do caçador, agarrando com uma das patas um tufo de cabelo do caçador, e o puxou.

-Agora você vem comigo, vou cuidar de você. – o animalzinho tentava puxar o caçador para dentro da choupana. As asinhas batiam a toda velocidade e com esforço para que o jovem levantasse.

-Bobo só você mesmo pra pensar que, com estas asinhas, poderia me erguer. – e levantou-se.

-Posso até não ter forças o suficiente para te levantar, mas dei o primeiro passo. Vem, entra logo pro frio não te machucar mais.

-Não se preocupe com o vento, ele veio apenas trazer a boa nova. Fiz um pedido as estrelas enquanto você dormia e fui atendido mais rápido do que pensava. Esse vento gélido que soprou não teve a intenção de me causar dano algum, veio apenas me trazer a resposta para o meu clamor...

-O que pediste?

O caçador abriu seu sorriso rosado enchendo a face de alegria, e respondeu:

-Pedi pra ser como você; ter asas para voar, para poder sair pro aí livre voando alto. Vou querer que você me mostre sua visão da vida, vista lá do alto. Quero poder voar na tua companhia para lugares que eu jamais poderia ir com minhas pernas.

O animalzinho parecia triste com aquele discurso. O caçador percebendo, logo o indagou:

-Ontem, quando eu voava pelo campo, para exercitar minha asa, passei num lindo lugar onde existe um desses poços que as pessoas acreditam ser mágico... Vi muita gente jogando moedas no poço e pedindo algo em troca. Horas depois, quando acabou a movimentação, eu me aproximei e a única coisa que eu poderia oferecer ao poço, era uma oliva que eu trazia na pata. Joguei-a lá dentro e fiz meu pedido... Pedi para ser transformado em gente, assim como você...

O jovem caçador pegou o bichinho, segurou-o bem e colocou-se olho no olho com ele e rindo, disse:

-Vem, vamos entrar, pois já é tarde. E não se preocupe: amanhã refazemos esses nosso Pe(r)didos. Mas aviso: vamos conservar as asas...